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INSCRIÇÕES ABERTAS

O QUE SÃO AFINAL AS CONSTELAÇÕES FAMILIARES (CF)?

A esta altura, e em qualquer momento da nossa vida, já todos teremos ouvido falar das CF’s. “Ajudam a resolver bloqueios”; “Curam os padrões da nossa família”; “Libertam-nos das cargas dos nossos antepassados”; entre tantas outras observações semelhantes que já teremos ouvido.
Para compreendermos as CF’s, e de uma forma simplificada, necessitamos primeiro de saber que foram desenvolvidas na Alemanha pela mão do autor Bert Hellinguer, com diversas formações em terapias (psicanálise, guestalt, terapia familiar, etc..), e que aos poucos foi focando o seu trabalho na importância do vínculo familiar (da criança com os seu clã) como peça central de importantes emaranhados (palavra usada pelo autor) que nos colocam numa continuidade “dos destinos difíceis dos nossos antepassados”.
Na verdade, podemos assemelhar esta abordagem a uma perspetiva social do indivíduo, na qual nós somos tudo aquilo que existe no nosso grupo – as suas forças e as suas fraquezas; a forma de olhar e de lidar com a vida; a forma de olhar para as mulheres e homens; a forma de olhar a doença; a forma de nos relacionarmos; etc.. Este conceito social aponta para a importância de incluirmos todo o contexto familiar na hora de tentarmos olhar para as nossas próprias limitações (e virtudes também), configurando assim aquilo que se denomina de abordagem sistémica. Assim, o todo é maior do que as partes dentro deste sistema familiar mostrando que qualquer abordagem centrada apenas numa parte carece de força para a sua resolução.
O facto de estarmos então ligados à nossa família, e aos nossos antepassados, e repetindo os mesmos padrões, deixa de ter um carácter místico para se compreender objetivamente que tal acontece pela força do nosso próprio vínculo. Em primeiro lugar, é a nossa própria consciência individual que nos “empurra” para aderimos a esta consciência familiar coletiva de forma a garantirmos que pertencemos a algum lugar. Por exemplo, se numa família todos roubam e estamos num jantar de família onde cada elemento (pai, mãe, irmãos..) conta o que roubou nesse dia, e se nós não tivermos conseguido roubar, como nos vamos sentir? A resposta à luz desta abordagem é a de que nos sentiremos fora da inocência, da leveza de sermos iguais, e sentiremos a culpa e o peso da nossa diferença, independentemente dos conceitos morais de bem ou de mal. Desde esta perspetiva não é incomum vermos por exemplo um problema de álcool presente na figura do avô e que se repete no pai e no filho que se mantêm assim leais a este comportamento. Em segundo lugar, o papel fundamental da aprendizagem e que resulta de um acontecimento anterior a nós. Tão anterior que podemos até nem conhecer a origem. Imaginemos uma bisavó que ainda jovem e tornando-se mãe perde a sua bebé por esta ter caído pelas escadas enquanto explorava o mundo. Imaginemos agora que esta mulher se torna mãe novamente. Como é o seu olhar para a sua nova bebé enquanto explora o mundo? O que sente esta filha perante o incentivo (ou falta dele) para crescer em segurança? Provavelmente o olhar da mãe será de medo, pânico ou terror. E provavelmente esta criança aprenderá que a vida e a morte estão (demasiado) próximas. Agora imaginemos que esta bebé cresce, se torna mulher, e tem a sua primeira bebé. Qual será o seu olhar na hora de apoiar a sua filha a explorar o mundo físico? O mais certo será passar à frente aquilo que aprendeu. Imaginemos então que uma bisneta desta descendência um dia resolve procurar uma CF porque lida com um medo profundo, paralisante e obsessivo. Um medo de morte. Quem é a pessoa morta afinal para este sistema familiar? Qual dos bebés? Apenas um, porém a força desse trauma “viaja” pelo olhar entre mães e filhas.
Chegado até aqui vemos então que esta abordagem não é culpabilizante já que afinal fazemos todos parte de um percurso familiar. Nem tão pouco encara os acontecimentos passados como um “mal” que atinge as gerações seguintes. Para além disso Bert Hellinguer realçou a existência de 3 Ordens dentro de um sistema (Pertença, Hierarquia e Dar e Receber) sendo que quando as honramos e respeitamos sentimos um amor profundo e uma força expandida. Estas ordens são denominadas de Ordens do Amor e é através destas que a reconciliação, a paz e a concordância entram na nossa vida.

COMO DECORRE UMA CF?
Tecnicamente dizemos que a CF é experiencial ou fenomenológica. Significa na prática que, em vez de um cliente contar toda a sua narrativa a um terapeuta, para que este, de acordo com as suas teorias, crie uma hipótese de ligação e uma solução, apenas se cria uma representação dessa questão (através de pessoas em grupo, ou bonecos individualmente) e sem que nada seja contado. Ao termos criado essa imagem o cliente (e o grupo) expõe-se a esta, e de uma forma experiencial permite-se que as suas emoções e movimentos surjam espontaneamente. É através desta imagem que se pode então trazer à consciência as dinâmicas que por norma estão ligadas à força de um trauma ou acontecimento difícil na família. O facilitador pode pedir para que sejam ditas algumas frases sistémicas (frases específicas das CF) que têm como objetivo enaltecer as Ordens do Amor de forma que o cliente encontre o seu lugar agora com mais leveza e fortalecido.

E DEPOIS DE UMA CONSTELAÇÃO?
A constelação é uma sessão única, por norma muito significativa em termos emocionais e de leveza nos clientes. É um trabalho de alma e para a alma, é por isso se diz que depois de uma constelação deve-se permanecer em silencio e não partilhar com ninguém a nossa vivência. A ideia é que a força seja mantida internamente e que, ao ser partilhada, a mente e as palavras retiram a força de todo um trabalho que assenta no amor, no respeito e na abertura.

Texto de José Miguel Silva
Facilitador e Formador de Constelações Familiares (Porto e Lisboa)
JOSEMOS – Escola Movimento Original Sistémico
josemos.com

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