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Quando o conhecimento não basta

Enteógenos, sombra e consciência: um convite à transformação responsável.

Quantas vezes procuramos respostas, estudamos, meditamos e aperfeiçoamos o nosso estilo de vida — mas, ainda assim, regressamos aos mesmos medos, padrões e conflitos? Ao longo de mais de 25 anos como terapeuta, acompanhando hoje mais de 400 alunos e tenho centenas de milhares de seguidores, recebendo hoje mensagens diárias, reconheço essa inquietação com frequência. Muitas pessoas sentem que “estacionaram”, que nada mudou de verdade ou que se tornaram uma fraude perante o próprio caminho espiritual.

A busca por conhecimento e desenvolvimento interior é valiosa. A meditação e uma vida mais consciente podem oferecer presença, clareza e novas escolhas. Contudo, há conteúdos internos que permanecem fora do nosso campo de visão: medos, culpas, vergonhas e traumas que se ocultam como forma de proteção contra a dor. Na perspetiva espiritual não-dualista, a sombra não é algo a combater, mas a levar à luz da nossa consciência para que possa ser reconhecida, iluminada e dissolvida. Não se trata de psicanálise, mas de disponibilidade para olhar, com honestidade e amor, aquilo que antes parecia insuportável.

Conheço esse processo por experiência própria. Depois de viver diferentes formas de abuso na infância, carreguei traumas profundos. Mesmo praticando meditação há quase 40 anos, por vezes via-me presa a condicionamentos e máscaras de proteção, que me faziam questionar a minha autenticidade como mentora e terapeuta. Um salto importante no meu caminho ocorreu quando tive o privilégio de conviver durante sete meses com uma família do povo Huni Kuin, indígenas originários brasileiros, e mergulhar, com respeito, na sua relação com as medicinas da floresta, designados enteógenos pela psiquiatria contemporânea. Na minha experiência, consegui então, de fato, trazer à tona conteúdos inconscientes e finalmente dizer que me libertei de todos os traumas.

A ayahuasca é uma preparação vegetal amazónica usada em contextos espirituais e rituais, usada na religião desse povo; a investigação contemporânea aponta para possibilidades terapêuticas que continuam a exigir estudo rigoroso. Para mim, o seu valor não está em prometer curas rápidas, mas em favorecer um encontro consciente com conteúdos internos, quando existe propósito, contexto seguro e integração posterior. O psiquiatra Wilson Gonzaga também sublinha que a avaliação individual, a estrutura de acolhimento e o respeito pelos limites são essenciais; sofrimento psíquico agudo, quadros psiquiátricos graves e certas interações medicamentosas requerem especial prudência.

Substâncias como a ayahuasca e outras medicinas da floresta não substituem o acompanhamento clínico, nem são um atalho espiritual. Podem, porém, convidar-nos a uma pergunta transformadora: o que em mim pede para ser visto, acolhido e entregue à luz? No dia 13 de setembro, aprofundarei esta reflexão na palestra “Saiba tudo sobre as medicinas da floresta: alucinógenos, psicodélicos ou enteógenos?”, no Festival de Bem Estar em Lisboa.

 

Sobre a Autora
Cátia Simionato
Mestra em meditação e referência em bem-estar e expansão da consciência, com mais de 25 anos dedicados à transformação pessoal. Criadora do método MRI – Manual de Reorganização Interna –, já guiou milhares de pessoas rumo ao equilíbrio emocional, clareza mental e conexão espiritual. Com formação internacional em mais de dez países, inspira através de retiros, mentorias e YouTube.

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